Marrocos tornou-se um destino de transição para os imigrantes subsarianos que ambicionam chegar à Europa – e muitos morrem a caminho
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São vítimas de violência, discriminação, abusos sexuais. Sair para comprar pão é demasiado arriscado. Têm medo das rusgas policiais, de ser recambiados para a fronteira e que tudo volte à estaca zero. Marrocos tornou-se um destino de transição para os imigrantes subsarianos que ambicionam chegar à Europa – e muitos morrem a caminho
Lotange vive num quadrado de dois metros por dois: paredes brancas sujas e descascadas, uma pequena janela, porta directa para um pátio comum. A cama de esponja onde dorme com a mulher e os dois filhos ocupa quase a totalidade do espaço. Aos pés, o pedaço de chão que resta está coberto de embalagens vazias, trapos, pratas de chocolate e sacos de plástico onde guarda alguma roupa e a quinquilharia que acumulou em três anos de Marrocos. O cheiro é nauseabundo: humidade misturada com falta de limpeza e o suor de quatro corpos que precisam de mais espaço para respirar. “Os africanos são tratados como animais. Nós sofremos, mas sofremos. Precisamos que o mundo nos oiça, precisamos que nos ajudem, estamos aqui completamente esquecidos”, diz quase a gritar, em jeito de súplica. Os seus olhos, agora molhados, cravam-se, nunca mais se esquecem: “Não peço dinheiro, peço trabalho, peço uma vida digna, peço que os meus filhos possam comer, brincar, ir à escola como crianças normais.”
Com a mulher, Brigite, fugiu à guerra na República Democrática do Congo, o conflito que provocou mais mortos desde a Segunda Guerra Mundial. Saíram à pressa, a pé, de forma clandestina, sem um destino na cabeça; um filho pela mão, outro ainda no ventre. O mesmo período de tempo pode durar uma eternidade ou apenas segundos: “Pensas que tens tempo para ir buscar o teu passaporte, mas não tens. Guerra é guerra. Na guerra, podes fugir sem os teus filhos”, justifica Brigite, 26 anos que parecem ser muitos mais.
Não importava para onde, como, com o quê, tinham de fugir: Lotange, agora com 30 anos, é um ex-militar e estava a ser perseguido. Levaram um ano a chegar a Marrocos, atravessaram o deserto para evitar a polícia, o segundo filho nasceu na estrada. Agora chamam-lhes ilegais, mas não há pessoas ilegais – apenas actos ilícitos. Para terem papéis, tinham de ter pedido o visto à embaixada antes de deixarem o Congo. É esse o estigma que lhes tolhe a vida.
Tal como a maioria dos entre 10 mil e 20 mil subsarianos que vivem actualmente em Marrocos (o Governo marroquino aponta para o número mais baixo, mas quase todas as associações falam de entre 15 mil e 20 mil), foi nesta “quase-Europa quando comparando com os países lá em baixo” que encontraram paz pela primeira vez, mesmo que seja apenas aparente. Deixaram a guerra mas têm outras batalhas para travar, mais pessoais, não menos difíceis: sem passaporte, não são ninguém e o escritório do Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) em Marrocos não lhes concede o estatuto de refugiados; sem este documento, não podem requerer qualquer tipo de ajuda monetária; sem dinheiro, são obrigados a pedir na rua; se saem de casa, a ameaça de espancamento e recâmbio para a fronteira está a cada esquina. É um ciclo vicioso que parece não ter fim.
“Nem para termos pão em casa, tenho medo que me apanhem e violem e depois apareço aqui como? Grávida? Quando nos apanham, a polícia envia-nos para a fronteira…” As palavras de Brigite saem atribuladas, ao ritmo dos seus medos, da sua revolta, do seu desespero. É o coração a bater na boca de quem nunca pensou que um dia teria de pedir na rua para comer e agora receia passar da porta.
Um medo justificado. As rusgas policiais foram intensas este Verão, sobretudo nos bairros onde a maioria dos habitantes são subsarianos. O sítio onde o casal vive, nas traseiras de Takadoum – um bairro periférico de Rabat conhecido como “sítio de bandidos” -, não foi excepção. Brigite e Lotange só não foram apanhados nesse dia porque a amiga Valeria lhes telefonou a alertar: “Não saiam de casa, acabámos de passar por um polícia.” As últimas 24 horas tinham sido de caça às pessoas sem documentos.
Desde o final de 2011 que o controlo da imigração em Marrocos é apertado. Antes, as rusgas só aconteciam nos dias que precediam grandes eventos ou visitas de Estado importantes. Agora, ocorrem em mais cidades, são mais frequentes, mais violentas. Bairros inteiros passados a pente fino pela polícia, que entra pelas casas adentro de madrugada, detém todos indiscriminadamente, deixa os que não tiverem papéis na fronteira. Foram mais de 33 mil os casos de deportações em 2012, segundo o Grupo Anti-racista de Acompanhamento e Defesa de Estrangeiros e Migrantes (GADEM).
Só Lotange já foi duas vezes despejado no Norte da Argélia, junto à cidade marroquina de Oujda. “Não tinha dinheiro para voltar, comecei a vir de vila em vila a pé porque tinha aqui a minha mulher e os meus filhos.” Viajar de Oujda a Rabat significa atravessar o país do limite fronteiriço com a Argélia ao limite fronteiriço com o oceano Atlântico, mais de 500 quilómetros para percorrer. “Chegou aqui quase nu, nem sequer tinha um casaco”, conta Brigite, a quem a ausência forçada do marido não guardou melhor sorte. “Nessa altura, [os polícias] apanharam-me na rua e espancaram-me, abriram-me a barriga, fui ao hospital e fizeram-me estas costuras. Só tive forças porque tinha os meus filhos”, recorda. A violência da polícia deixou-lhes marcas impossíveis de apagar. Uma cicatriz desce a face esquerda de Lotange, Brigite levanta a T-shirt que tem estampada na parte da frente a frase “Trip to Europe” [viagem para a Europa] para mostrar as suas.
Presos à porta da Europa
Em Março, quando tentava escalar os muros de arame farpado que cercam Melilla (enclave espanhol), Clément não sobreviveu à surra da polícia. Uma equipa de jornalistas que relatava as condições de vida dos imigrantes que vivem nas florestas junto à cidade fronteiriça filmou a morte do camaronense e o vídeo transformou-se numa campanha: “Número 9: Parem a violência nas fronteiras” (o 9 era precisamente o número que estava escrito na T-shirt desportiva que Clément usava no dia em que morreu). No final de Julho, um professor universitário congolense teve o mesmo destino: morreu depois de a polícia o atirar para fora de uma carrinha em andamento que transportava imigrantes para a fronteira com a Argélia.
“Às vezes, entram nas nossas casas às cinco da manhã: “É a polícia, é a polícia!” e espancam-nos. Mesmo as mulheres com filhos são espancadas. Violam-nas e tratam-nas como se fossem prostitutas”, denuncia Laye Camara, coordenador do Conselho de Migrantes Subsarianos em Marrocos (CMSM). “Num sítio a que chamamos “Casa Branca”, em Nador [cidade no Norte de Marrocos], onde se refugiam muitos imigrantes, vieram com 100 litros de gasolina para nos pegar fogo. Queimaram tudo, mas as pessoas conseguiram fugir”, conta.
“Os esforços do Governo marroquino, apoiado pelos seus parceiros europeus – particularmente o Governo espanhol -, para combater “a criminalidade transfronteiriça, a imigração ilegal e o tráfico de drogas e armas” resultaram num aumento dramático de ataques indiscriminados e em larga escala às comunidades de imigrantes subsarianos em Marrocos.” A acusação é feita pelos Médicos Sem Fronteiras no relatório “Violência, Vulnerabilidade e Migração: Presos à Porta da Europa”, publicado em Março, o último antes de fecharem os escritórios que tinham no país. Várias organizações, locais e internacionais, têm denunciado casos semelhantes. Quase todos os líderes das associações de imigrantes em Marrocos já estiveram presos.
“Pediram-me para escrever um relatório sobre os assaltos feitos em Takadoum – roubo de dinheiro, telemóveis, espancamento e prisão de subsarianos – e a polícia veio a minha casa pedir satisfações, queriam ver o documento. Como não cedi, fui detido nessa mesma noite [20 de Outubro de 2012]. Acusaram-me de posse de bebidas alcoólicas e de 140 maços de tabaco e obrigaram-me a assinar um papel escrito em árabe onde confirmava isso tudo. Fi-lo sob tortura, não percebia nada do que lá estava escrito; ameaçaram-me e tive medo que me matassem”, recorda o coordenador do CMSM.
Marcel Amiyeto, director da Organização Democrática do Trabalho e refugiado da República Democrática do Congo, é outro que conhece bem as prisões marroquinas. Ser detido é uma ameaça diária com a qual já aprendeu a lidar. No dia em que o entrevistámos, os vizinhos notaram uma presença estranha e denunciaram-no; a polícia foi lá a casa fazer perguntas. “Eram todos meus amigos”, justificou-se. Aquela última semana de Agosto estava a ser particularmente violenta com prisões de subsarianos por toda a Rabat.
Um “país tampão”
Nos últimos 15 anos, a União Europeia (UE) não tem escondido as suas intenções de travar a imigração ilegal através de países terceiros e tem pressionado Marrocos para implementar políticas mais restritas e aumentar o controlo nas fronteiras. Tornou-se no mais importante parceiro comercial do país do Norte de África e prometeu, com o programa MEDA (Medidas de Acompanhamento), promover a sua competitividade através do desenvolvimento do sector privado. Com o aumento da população subsariana, grande parte das verbas acabaram aplicadas na tentativa de fazer de Marrocos um “país tampão”: em 2006, deu 67 milhões de euros para as autoridades marroquinas reforçarem a vigilância nas fronteiras; desde então têm sido assinadas várias parcerias de mobilidade, a última em Junho deste ano.
A lei que actualmente regula a entrada e saída de migrantes em Marrocos é de 2003 e prevê punições severas para a imigração ilegal e o tráfico humano. Nessa altura, o país foi acusado de ser a “polícia” da UE e de ceder às suas pressões. Apesar da expulsão de refugiados, grávidas ou menores ser proibida, e mesmo os imigrantes sem documentos terem direito a um advogado, a contactarem a embaixada do seu país ou a serem avisados com antecedência em “caso de deportação iminente”, na prática não é isso o que acontece.
O tema é polémico e o equilíbrio está longe de ser fácil. Por um lado, o rei Mohamed VI quer mostrar um país unido e calmo, sobrevivente às revoltas da Primavera Árabe; um país modernizado, aberto à mudança e respeitador dos direitos humanos (os direitos das mulheres foi uma das suas bandeiras na subida ao trono em 1999). Por outro, Marrocos está cada vez mais a deixar de ser o país que desde os anos 1960 envia emigrantes para a Europa, para a partir dos anos 2000 passar a ser um destino de transição – e muitas vezes o destino final – da imigração oriunda da África subsariana. A prioridade do Governo é vingar os acordos com a UE, expulsando o fardo para os países vizinhos como a Argélia ou a Mauritânia.
O medo de ser apanhado pela polícia e deportado é o que separa um imigrante sem papéis de um imigrante com o carimbo válido no passaporte, o visto dentro do prazo, a carta de candidato a asilo ou o estatuto de refugiado. De resto, sofrem a mesma discriminação, vivem nos mesmos bairros, no mesmo quarto lotado, sem emprego e com o mesmo objectivo: chegar à Europa. Em Agosto, apenas 850 imigrantes subsarianos em Marrocos eram refugiados: 49% da Costa do Marfim, 19% da República Democrática do Congo, 17% do Iraque. Havia ainda 3942 candidatos a asilo: 830 sírios, os restantes de países como a Nigéria, República Democrática do Congo, Costa do Marfim, Mali e Camarões.
Valeria perdeu o rasto aos filhos
Valeria é refugiada e vive em Rabat há cinco anos. Teve de fugir da República Democrática do Congo porque, quando o marido morreu, um tio da mãe queria casar-se com ela. “Ele já tinha quatro mulheres, mas eu não queria ser a quinta. Bateu-me com um machado e disse na vila que eu era bruxa. Se ficasse, matavam-me”, conta, entre longas pausas, com a voz a mirrar, o olhar longe. Os filhos ficaram com a avó, mas desde que a mãe morreu perdeu-lhes o rasto. “Não sei onde moram, não tenho o número de telefone nem nada.” Com 35 anos, é uma mulher bonita, cuidada: olhos grandes que a sombra verde platinada faz sobressair, unhas pintadas com um verniz já lascado, roupas largas que lhe disfarçam os quilos a mais.

A sua história encaixa nos critérios do ACNUR: fugiu porque era perseguida e o Governo do Congo não tem meios para a proteger. Foi reconhecida como refugiada. Com a assistência financeira que recebe e a venda de bijuterias que produz na Fundação Oriente Ocidente (centro que acolhe e ajuda a integração de subsarianos na sociedade marroquina), consegue juntar o suficiente para sobreviver, mas pouco sobra. Vive com três pessoas no mesmo quarto. Cozinha e lava a loiça para o primo, estudante em Rabat, e aproveita as refeições dele. Quando ele viaja, fica lá a dormir, um quarto com televisão por cabo, sofá, frigorífico, muito diferente do seu.
Ser reconhecido como refugiado pelo alto-comissariado da ONU em Marrocos significa ser tolerado. Nada mais. A polícia não incomoda, podem receber assistência médica e legal e os filhos estão autorizados a frequentar as escolas oficiais. Não dá direito a licença de residência – ainda que este esteja previsto na Convenção de Genebra assinada por Marrocos em 1956, o primeiro país árabe a fazê-lo -, impossibilitando-os de assinar um contrato de trabalho ou de arrendamento. Resta-lhes o mercado informal e as suas escassas oportunidades.
“Tenho estatuto de refugiado, mas sou igual aos outros: não tenho nada para fazer, não estudei, não me sinto ninguém.” Guelor, 21 anos, chegou a Marrocos com três, já não lhe sobra família. O pai morreu, o tio quis casar com a mãe, ela recusou e começaram a ser perseguidos. “Antes de fugirmos, o irmão do meu pai ainda conseguiu matar as minhas duas irmãs mais velhas”, relata de cor um episódio do qual não tem memória. Já na travessia até Marrocos, a mãe não resistiu e morreu com problemas de estômago; o irmão desapareceu há dois anos. Ficou sozinho. “Ainda sou novo, gostava muito de estudar.” Primeiro francês, para “poder falar e escrever bem”, depois disso, viria o sonho: ser futebolista.
No início de Setembro, o Conselho Nacional dos Direitos do Homem (CNDH) de Marrocos publicou um relatório sobre a situação dos migrantes e refugiados no país, condenando a acção violenta das forças de segurança e recomendando uma “política de asilo e migração radicalmente nova”. Um dia depois, o rei reagiu. Em comunicado, Mohamed VI afirmou ter instruído o Governo a trabalhar numa “nova e abrangente política de migração”, mas negou o “uso sistemático de violência por parte da polícia”. A 25 de Setembro, o Escritório de Refugiados e Apátridas, encerrado desde 2004, reabriu e iniciou o processo de regularização dos refugiados reconhecidos pelo ACNUR. O organismo passará a ser responsável pela atribuição do estatuto de refugiados e candidatos a asilo no país, quem for reconhecido deverá receber autorização de residência.
Segundo Marc Fawe, responsável pelas relações externas do ACNUR em Marrocos, este era o passo que faltava para que a maioria dos refugiados pudesse ficar e reconstruir uma nova vida. “Há uma tendência para os imigrantes considerarem Marrocos como um bom país para permanecer. Isto pode ser consequência de duas coisas: primeiro porque atravessar para a Europa é muito mais difícil, segundo porque é um país estável e com crescimento económico”, afirma. Mas para Nuria Mas Rubio, responsável da Fundação Oriente Ocidente, a maioria continua apenas à espera de passar para o outro continente. “Pensam que vão encontrar ali o paraíso, que vão encontrar trabalho, que não vão encontrar racismo, que vão ser cidadãos ao mesmo nível dos europeus e, sobretudo, porque assim que atravessarem podem enviar dinheiro para casa.” Ainda que a crise económica seja grave, “a pior situação na Europa é muito melhor do que a melhor aqui, inclusivamente para os refugiados”, não se cansa de repetir.
O sonho de ir além-mar
Lotange e Brigite perderam o filho mais velho no mar de morte que separa o Norte de Marrocos do Sul de Espanha. Chamava-se Sidi, tinha quatro anos, era “muito bonito”. “Só queria dar-lhe a oportunidade de uma vida boa”, justifica-se Lotange. A ideia era enviar os outros dois depois, “pelo menos eles”: Emanuel e Djene, agora com um e quatro anos, uns pestinhas irrequietos que queriam a todo o custo ter uma palavra a dizer. “Até hoje ninguém tem certezas do que aconteceu, mas diz-se que já estavam muito perto da fronteira quando a polícia marroquina viu a piroga. Voltou a toda a velocidade e atirou o seu barco potente contra ela: 40 pessoas morreram, 30 sobreviveram, o meu filhinho morreu.” Lotange faz longas pausas enquanto conta a história, precisa de se recompor; Brigite deita-se num dos cantos da cama encostada à parede, a cabeça baixa, brinca e beija os mais novos, zangada. Não quer que o marido conte aquilo, não quer ter de se lembrar. “O que é que achas que vão fazer com isso? Trazê-lo de volta?”

[Ver entrevista a Brigite e Lotange]
Apesar do que aconteceu, o sonho desta família continua o mesmo, igual ao de tantos outros imigrantes: ir além-mar. Dos sem-papéis aos refugiados, dos que estão no país há anos aos que acabaram de chegar, dos mais esperançados aos resignados na dificuldade. Para todos eles, a viagem só termina em solo europeu. “Procuramos um país que nos acolha, nos proteja, onde possamos viver com os nossos filhos porque estamos fartos de sofrer. Queremos ir para a Europa porque lá há muito mais tranquilidade, a polícia não trabalha como a de Marrocos”, resume Lotange.
Querem ir, mas não a qualquer custo: a maioria não pretende atravessar de forma ilegal, pulando os muros espanhóis, mergulhando nos barcos dos contrabandistas, viajando debaixo de camiões. Só Ali diz estar disposto a tudo. “Quero tentar todas as maneiras que conseguir para chegar à Europa, todas as maneiras”, confessa, acenando lentamente a cabeça, absorto. Parece estar a convencer-se a si mesmo. “O meu dia-a-dia [em Marrocos] é muito difícil, porque só gasto dinheiro que não ganho. Não sei até quando vou viver aqui. Só tenho passaporte e visto para três meses e o tempo está a passar: não sei se vou para a Europa ou se tenho de voltar para trás. Vivo neste stress todos os dias”, conta.
“O meu projecto: um website de desporto”
Ali tem 31 anos, é jornalista, licenciado, foi correspondente da BBC e do Daily Telegraph durante a guerra civil na Costa do Marfim, mas os grandes trabalhos terminaram com o conflito e o jornalismo desportivo, a sua grande paixão, não está suficientemente desenvolvido no país. Tem desejos não muito diferentes dos de outros jovens que querem correr o mundo: experimentar uma nova realidade, conhecer outras pessoas, aprender. “Eu sei que, se for para a Europa, terei uma boa oportunidade para construir o meu projecto, um website de desporto. É toda a minha vida.”
Quer vingar além-fronteiras na profissão de que gosta “desde pequenino” e só regressar à Costa do Marfim “no dia em que for bem-sucedido”. Portugal é o primeiro destino onde se imagina. Durante o Campeonato do Mundo de Futebol na África do Sul, em 2010, conheceu dois jornalistas portugueses com quem mantém contacto até hoje: “Se há alguém a quem posso chamar amigo, ele está em Portugal. [Além disso,] lá posso ficar escondido, ninguém me vai encontrar.” Um primeiro passo antes do resto da Europa, dos grandes campeonatos de futebol.
Para atravessar legalmente, é preciso ter um convite de alguém na Europa, dinheiro na conta bancária, um contrato de trabalho assinado, candidatar-se a um visto e esperar que a resposta seja positiva. Se um dia conseguir reunir todas estas exigências, Barbara, 31 anos, quer ir para um país europeu terminar os estudos em Medicina – faltava um ano e meio quando foram interrompidos pela guerra na República Democrática do Congo. “O meu sonho é especializar-me [em ginecologia] e abrir uma clínica no meu país para mulheres como eu, que sofrem de violência e abusos sexuais”, conta, enquanto mexe no vestido numa tentativa de esconder a barriga de oito meses, fruto de uma violação. Quer que seja menino, “é tudo muito mais fácil”.

Numa voz doce e assertiva, Jihno fala do sentimento geral: “É preciso parar a guerra no mundo, que exista uma verdadeira paz, sobretudo entre os africanos. É essa a mensagem que quero cantar.” Aos 35 anos, continua a parecer um adolescente com estilo de bad boy: óculos escuros Ray-Ban que nunca tira, colar prateado com uma cruz ao peito, corrente pendurada no bolso das calças de ganga, T-shirt estampada com um desenho que faz lembrar graffiti; os chinelos de enfiar no dedo cobertos de penas dão o toque final. É cantor e diz ser também “um grande profissional da dança” – “nós, os africanos, fazemos a dança com a anca”, explica. Quer um dia chegar ao sítio onde se encontram “os grandes artistas”: a Europa, claro. Se conseguir passar, não tem dúvidas de que terá sucesso e conseguirá juntar dinheiro suficiente para a filha que ficou no Congo poder estudar.
Já Kone só quer jogar futebol. Em Marrocos, na Europa, onde o deixarem. “Quero ir para um país onde me digam que há um clube onde eu possa jogar para poder mostrar as minhas qualidades”, projecta, ignorando que 22 anos poderão ser anos a mais para começar uma carreira como futebolista. Viu o pai meter-lhe nas mãos todo o dinheiro que tinha poupado durante a vida – uns mil euros – e pedir-lhe para fugir. Depois de a guerra já lhe ter roubado os dois filhos mais novos, não queria perder o único que lhe restava. “Os expatriados já se habituaram a sofrer, habituámo-nos a viver assim, com quase nada. Na Costa do Marfim, estudei, joguei futebol, era comerciante… Pensava que poderia viver bem em Marrocos, mas não tenho trabalho, não tenho o que comer, só tenho algum dinheiro quando consigo carregar as malas das pessoas até aos táxis. Dormi muitas vezes na rua e comi do lixo”, conta.
O dinheiro que os pais lhe deram foi quase todo perdido em esquemas para “arranjar os papéis”. O sonho da Europa e de uma vida melhor é muitas vezes o que os segura, o que os faz suportar o dia-a-dia de miséria. Pedir-lhes para prescindir disso é remetê-los para uma vida sem dignidade. Ficar em Marrocos é renderem-se, voltar para trás é assumirem o fracasso. Kone resume todo o futuro: “Se não tiver sorte, terei de regressar. Ficarei em casa dos meus pais: como, durmo, espero a morte.”
A vida toda dentro de um saco da Adidas
Mohamed está a sorver uma sopa quente junto com outros sem-abrigo na Gare du Nord, em Bruxelas. É muçulmano e não costuma comer carne de porco, mas quando tem fome, diz, “marcha tudo, menos veneno”. Tem 40 anos, veio da Guiné-Bissau e está na Europa há mais de uma década. Foi traficante mas não gosta de usar a palavra “droga”, vive na rua mas recusa o rótulo de “coitadinho”, prefere que o vejam como “forte e lutador”. Nesse dia, não quis ser fotografado: “Achas que aqui o Mohamed pode aparecer assim, com esta roupa? Não, tem de se pôr bonito!” Mas contou-nos a sua história
Las Palmas, 12 de Dezembro de 1999, domingo — podem confirmar no calendário —, nunca mais esquecerei esse dia, o primeiro em que pisei a Europa. Uma Europa que não tem nada que ver com a de hoje. Nessa altura, os imigrantes eram tratados como pessoas, agora parece que o milagre europeu se acabou. Os africanos continuam a querer vir para cá, mas isto está longe de ser um paraíso: se não conheces ninguém, também podes morrer à fome. Mas eu percebo-os: em Bambadinca [cidade no Leste da Guiné-Bissau], as pessoas vêem que o Mohamed que começou a trabalhar como professor de Química e ganhava menos de 10 euros por mês tem três casas e pôde comprar um Opel Frontera à sua mulher.
Não vale a pena dizer o quanto isto está mau, os africanos vão continuar a querer vir para a Europa, é esse sonho que faz com que muitos não se sentem à espera da morte. Mesmo que acabem como eu estou agora: nas ruas de Bruxelas, sem uma casa fixa e sem trabalho. Quando saí da Guiné-Bissau, sabia duas coisas: que aqui fazia um frio do caraças e que precisava de 2750 dólares para a viagem de barco da Mauritânia até à Gran Canaria. O dinheiro trazia-o escondido nos sapatos, juntei-o depois de três anos a trabalhar para uma ONG dinamarquesa onde ganhava mais de 200 euros por mês, um salário milionário no meu país; o casaco para me aquecer comprei-o numa feira em Nouadhibou, na Mauritânia, era preto, de lã até ao joelho, com capuz. Pelo caminho, dormi na rua em Dakar, no Senegal fui roubado quando tentava trocar dinheiro para apanhar a jangada que me levaria até Rosso [Mauritânia] e fiz uma filha em Marrocos.
Recordo-me de entrar no Albimar, o barco de um português que agora deve estar milionário, e ter vontade de chorar, estava quase… O Carlos subornava a polícia, ganhava cerca de 80 mil dólares por cada travessia e dava-lhes uma percentagem. A viagem durou quatro dias, éramos cerca de 30 pessoas dentro de uma embarcação com lotação para dez, no máximo. Houve quem passasse muito mal, o tempo todo a vomitar, eu já estava habituado às pirogas da Guiné. Quando cheguei, fiquei 40 dias num centro de acolhimento em Las Palmas, depois enviaram-nos para Madrid já com a papelada toda tratada. Nessa altura, estava o Aznar no poder [José Maria Aznar foi líder do PP, de centro-direita, e primeiro-ministro de Espanha entre 1996 e 2004] e toda a gente tinha direito à carta de residência. No mesmo dia em que cheguei a Madrid, disse à senhora que me recebeu: “Quero ir para Portugal.” Compraram-me o bilhete e deram-me algumas pesetas. Nesse mesmo dia parti para Lisboa. Toda a minha vida coube num saco de desporto preto da Adidas que trazia a tiracolo.
Quis ir para Portugal porque sabia falar a língua e há anos que ouvia como tudo era maravilhoso. Quando um português se encontra com um guineense, somos família, é o mesmo sangue que circula pelas veias. A primeira coisa que vi, ainda do autocarro, foi o Cristo-Rei e a ponte do Salazar, que conhecia dos livros da escola. Cheguei a Sete Rios às seis da manhã e liguei ao meu primo que vive em Mem Martins. Seis dias depois, o Mamadou arranjou-me um trabalho. Chovia tanto, fazia tanto frio que eu disse-lhe: “Mas tu estás maluco, como é que eu vou sair da cama com este tempo?” Começámos a discutir. Trabalhei na construção civil durante 15 dias, quando o meu irmão — que é engenheiro e vive na Madeira — soube o que andava a fazer disse-me: “Tu tens é de descansar, vens de uma viagem muito difícil. Vou enviar-te dinheiro para a comida e para o transporte.” Estive quatro meses de férias, nunca tinha tido férias na minha vida. Não fazia nada: levantava-me de manhã, apanhava o comboio e depois o metro. Primeiro conheci Lisboa debaixo de terra: a linha vermelha, amarela, verde e azul; depois andei em todos os autocarros da Carris. Se um dia ganhar o Euromilhões, ou tiver um dinheirão, compro uma casa no Oriente, é um dos sítios mais bonitos que já vi: tranquilo, onde se pode pensar antes de adormecer.
Como tinha autorização de residência em Madrid, acabei por voltar e comecei a distribuir publicidade nas caixas do correio. Trabalhava para duas empresas, três horas em cada, e ganhava o suficiente para comer e pagar a renda de casa, sobrava muito pouco para enviar para a minha família, e muito menos para aquilo que eu mais queria: começar a construir uma casa na Guiné. Enquanto andava pelas ruas, muitos turistas vinham perguntar-me se tinha chocolate [barras de haxixe]. Ao fim de um ano, pensei: “Porque não?” A primeira vez que vendi droga gastei 60 euros e ganhei 600, guardei 100 e investi o resto. Percebi que com este negócio ganhava mais num dia do que a distribuir publicidade durante um mês.
Até 2008, quando fui preso em Santa Cruz no Tenerife, fui traficante de droga. Consegui ir duas vezes de férias à Guiné: na primeira, conheci a minha mulher e ela engravidou; na segunda, conheci a minha filha mais velha, casei e a minha mulher engravidou novamente. Construí três casas no meu país e comprei um carro. Se me arrependo da vida que levei? Sinceramente? Não. Nunca fiz mal a ninguém, se não fosse eu a vender, seria outro qualquer. Foi a única oportunidade que encontrei para poder ambicionar algo mais do que a miséria. Conheço a América Latina como a palma da minha mão, fui à Venezuela, ao Chile, ao Brasil, à Colômbia, ao México… Levava comigo sempre duas mulheres — a Sílvia, nigeriana, e a Nami, marroquina — que engoliam cocaína. Quando chegávamos ao destino, tinham de vomitar o produto e eu fazia o negócio. Chegaram a transportar 1,6kg, cerca de 60 mil euros. Foi assim até ao dia do azar.
Quando acabou de tirar tudo do estômago, a Sílvia ligou-me. Não havia voos directos Madrid-Santa Cruz, tive de fazer escala em Milão. Cheguei ao Tenerife de manhã, fui directo ao hotel, não estive nem cinco minutos no quarto e desci, ia encontrar-me com um cliente num café que ficava numa rua estreita e escondida quando de repente apareceu a polícia: “Olá senhor, como está?” “Bem, obrigada.” “Onde estão os seus papéis?” Nessa altura, tinha tudo em dia e mostrei-lhes. “E essa mochila, o que tem dentro?” “Para que é que interessa o que está na mochila?” O polícia saiu do carro para me arrancar a mochila à força, sabia o que estava lá dentro, ainda consegui dar um pontapé no saco que acabou por rebentar, o pó espalhou-se todo no chão. Não fiz mais nada, estendi as mãos e entreguei-me. Fui condenado a 38 meses de prisão, libertaram-me ao fim de 29 por bom comportamento. Fui preso na mesma semana em que nasceu a minha filha mais nova, que ainda não conheço; a minha mulher e a minha mãe só conseguiam chorar ao telefone e eu perguntei-lhes: ‘Mas o que pensavam, que as casas que têm aí com tudo do bom e do melhor caíram do céu? Estavam à espera do quê’?” Se eu tivesse um trabalho que me oferecesse o suficiente para ter uma vida digna, nunca me teria posto neste negócio. Completei o ensino secundário (no meu tempo, não existiam universidades na Guiné), falo francês, português e espanhol, sou esperto… Porque não posso ambicionar ter um trabalho que permita às minhas filhas estudarem?
A vida também é feita de oportunidades, eu agarrei a única que tive e saí-me mal. Desde então, nunca mais voltei a ter documentos legais na Europa. Consegui trabalho como cofrador na Holanda, como pescador na Noruega e vendi coisas na rua na Suíça. Se trabalhasse só para eu viver, era fácil, mas preciso de dinheiro para a minha família. Todos os meses envio para a Guiné 150 euros para comprarem cinco sacas de arroz e pagarem a escola, carrego o telemóvel para falar com as minhas filhas e pago 175 euros de renda da casa em Madrid, que aindo partilho com dois amigos. O que sobra? Nada, a maioria das vezes falta e eu não como.
Desde que fui preso, nunca mais me endireitei. Vim para Bruxelas porque me disseram que aqui se arranjava trabalho, que era a capital da Europa, mas é a pior cidade de todas as em que já vivi. É a cidade onde vi mais gente a dormir na rua, não há um sítio onde possamos comer uma sopa quente, onde possamos tomar banho, nem sequer urinar conseguimos sem pagar: 50 cêntimos para urinar? É por isso que Bruxelas é porca e cheira mal. Só cheira bem ao pé do Parlamento Europeu e é porque as pessoas usam perfume. Aqui foi o primeiro sítio onde dormi na rua, agora vivo num prédio ocupado por vários sem-abrigo, mas a polícia deu-nos duas semanas para sairmos. Logo que tenha dinheiro para o bilhete de autocarro, volto para Madrid. Já ninguém nos dá valor, sente-se cada vez mais discriminação, mas houve um tempo em que a imigração era bem-vinda, nós, os negros, também ajudámos a construir este continente. Deixei o meu país porque estava desesperado, sem trabalho, sem futuro. Pelos mesmos motivos que levaram os portugueses a sair nos anos 1960 para França e para a Suíça e que os obrigam a sair agora; só têm de acrescentar a isso fome, guerra, problemas familiares, perseguições.
Os africanos vêm para pedir socorro, passamos mesmo muito mal em África. Depois do que sofremos para chegar, depois de termos arriscado a vida, não podem simplesmente dizer-nos “vai mas é para a tua terra” sem conhecerem os nossos motivos. Enviar uma pessoa que chega à Europa para o seu país é uma loucura. Os governantes estão malucos agora. Não podes simplesmente dizer “vai-te embora!” Regressar como? Quem governa África são malucos também. Prender e espancar uma pessoa que está a andar na rua só porque lhe chamas ilegal é normal? Porque nos estão a fazer isto? Tantas campanhas para ajudar África, ajudem primeiro os africanos que estão perto. A única coisa que eu quero antes de voltar é arranjar dinheiro para a minha mulher poder acabar o curso de Medicina. Depois, com o aluguer das minhas casas, vamos conseguir viver. Não quero ser velho aqui na Europa. Mesmo que eu tenha um passaporte europeu, Deus me livre de estar aqui com 60 anos. Para quê? Aqui, quando és velho, já ninguém te respeita, é como se fosses lixo. Nem quero pensar nisso. Viver na Europa foi um sonho realizado, morrer aqui seria uma catástrofe. Uma verdadeira catástrofe.
com Sofia da Palma Rodrigues
[Reportagem patrocinada pelo programa de formação jornalística Beyond Your World e publicada no suplemento P2, do Público, a 3 de Novembro de 2013.]