Falta apenas o parecer final da Autoridade de Segurança Alimentar Europeia para que produtos alimentares com gafanhotos, grilos e larvas de besouro possam ser comercializados no espaço comunitário europeu. Mas quem é que os vai comer?
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Sobre o prato, há barras energéticas com dois sabores: umas de manteiga de amendoim e mel, com base de cereais e bagas gogi; e outras de amêndoa, maçã e canela, com base de tâmara. O ingrediente especial? Farinha de larvas de besouro-preto, que Guilherme Pereira e Sara Martins criam, desidratam e processam em Perafita. A primeira é receita finalizada, a segunda ainda está em fase de testes. Estivesse a venda já autorizada e “num mês” a Portugal Bugs conseguia pô-las no mercado, garantem.
É nas barras proteicas que se têm focado, mas há mais produtos nos planos da microempresa portuguesa: “Temos algumas formulações para diversos tipos de pães com sementes e também conseguimos produzir massas.” Já as bases de pizza ainda são só “umas brincadeiras”, tal como os chocolates. Apenas estes terão os insectos inteiros e, por isso mesmo, estão relegados para uma fase posterior. Guilherme e Sara acreditam que o primeiro contacto com o consumidor português tem de ser invisível à repulsa que estes bichos tendem a provocar. “Temos noção de que o consumidor não está preparado para isso neste momento.”
Patrícia Borges concorda. Para a chef e professora de cozinha na Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar de Peniche, a principal barreira ao consumo de insectos são os vários mitos a que estão associados. “São consumidos pelas populações dos países subdesenvolvidos, estão associados ao comportamento primitivo, à transmissão de bactérias e doenças, a rituais de bruxaria, às pragas que devastaram os campos agrícolas”, enumera. Por isso, o início vai passar pelos produtos transformados. Barras energéticas, bolachas, massas, pães, batidos, iogurtes, granolas, almôndegas, hambúrgueres. “É muito mais fácil convencer uma pessoa a comer uma barra energética onde não se vê o insecto do que dar-lhe a provar uma colher de grilos.”
Foi este o argumento que deu origem ao projecto Insects au Gratin, desenvolvido desde 2011 por uma equipa de investigação da London South Bank University, da qual faz parte a designer portuguesa Susana Soares. Através de intricadas peças de arte, feitas com farinha de insecto e criadas em impressoras 3D, o projecto procurava “chamar a atenção das pessoas” para a importância destes alimentos e do combate ao desperdício alimentar, tentando fazê-lo “de uma forma que as levasse a ficarem interessadas em consumir”.
Patrícia Borges e Guilherme Pereira acreditam, no entanto, que os primeiros consumidores destes produtos vão ser os desportistas e aqueles que procuram ter uma alimentação mais saudável e amiga do meio ambiente. Os primeiros porque “pretendem ingerir uma maior quantidade de proteína com o objectivo de reforçar a massa muscular”, os segundos porque encontram nestes alimentos uma alternativa proteica à carne e ao peixe. “Como são ricos em gorduras insaturadas, também são adequados para pessoas que querem fazer dieta”, acrescenta Patrícia Borges.
O projecto de investigação de Susana Soares enveredou, entretanto, por um caminho completamente diferente: papas moles para pessoas com dificuldades em engolir ou com condições médicas que as impeçam de consumir alimentos sólidos e barras energéticas para serem distribuídas em “situações de catástrofe e emergência”. O trabalho centra-se agora sobretudo nas técnicas de impressão em 3D, com vista a uma maior eficácia em termos de produção alimentar. “O objectivo é criar outros nichos de aplicação para este tipo de produtos e não necessariamente ganhar milhões com isto.” Mas Susana assume outras razões para a mudança de rumo: “Acho que são mais fáceis de introduzir [no mercado], para já, e também é mais fácil arranjar quem custeie o projecto.”