São Tomé: sorrisos de cajamanga, praias de café

A ilha de São Tomé ensina-nos muito: sobre plantas, cacau, café, gastronomia, sobre desacelerar entre uma Rosema e um mergulho cálido em cenário paradisíaco, sobre dar de sorriso o pouco que se tem. É uma leveza que contagia.

Foto: Nuno Ferreira Santos

Jeje bem tenta falar-nos das plantas que despontam junto ao carreiro por onde caminhamos, bem tenta contar-nos a história da roça de Monte Café, fundada em 1858. Mas alguém está a cantar algures nas sanzalas e a voz, melódica e cristalina, atravessa a antiga roça como vento. Parece cenário de filme: um calor abrasador, uma humidade que se cola ao corpo, miúdos que nos levam pela mão e aquela voz, calam-se os pássaros para ouvi-la.

Já tínhamos voltado a prestar atenção a Jeje Lima, 29 anos, de corpo esguio e sorriso tímido, que aqui nasceu e aqui guia turistas desde 2011, depois de dois anos de vida militar, quando a voz regressa, agora tão perto, irresistível. Os cães denunciam a intromissão e Leia interrompe o “trabalho da casa”. Encontramo-la a varrer o alpendre em desgarradas. “O meu pai é compositor na nossa igreja, aprendi com ele e com a rádio.”

Aos 19 anos, Leia frequenta o 11.º ano e tem nove irmãos. “Agora sete aqui, porque um está em Cabo Verde e outra a estudar em Portugal.” Começou a cantar aos 12 e é “primeira voz” no grupo coral da igreja Força de Esperança, instalada num dos antigos barracões da roça, conta num orgulho embaraçado. É a primeira vez que canta assim, fora do palco sagrado, para um bando de portugueses intrometidos.

É leve-leve o lema de São Tomé. As estradas esburacadas, o calor, o mar morno, as falhas na electricidade (onde existe), a falta de emprego e de investimento, tudo se conjuga para abrandar o ritmo do segundo país mais pequeno do continente africano (em território e população). Mas leve-leve é também desacelerar num passeio pelo mangal ou num mergulho numa das praias que se abeiram da estrada, desertas, com uma água morna, morna, e palmeiras a cair sobre o areal, ou esquecer as horas num dos bares-esplanada da cidade a beber uma Rosema, a cerveja nacional. Leve-leve é o espírito de quem não espera por amanhã para gozar o que tem hoje, de quem partilha de sorriso largo o pouco que tem.

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