Do Tejo de Vila Velha de Ródão às apalaches de Oleiros, sem esquecer a história e a criatividade de Castelo Branco. Não faltam argumentos para uma escapada à região raiana.

“Eu nasci no meio do rio”, diz, num sorriso rasgado de orgulho. António Pinto, 71 anos, sabe que é uma imagem bonita, esta de se nascer em pleno Tejo. Ainda que por um mês, confesse, não seja inteiramente verdade. António nasceu a 1 de Maio e a família só se mudava para o ilhéu que existia ali ao fundo, junto às árvores mais altas que despontam na outra margem, a 1 de Junho. Mas perdoamos-lhe a imprecisão. Foi nesta transumância estival que António viveu toda a infância, até as barragens de Fratel e de Cedillo, construídas no início dos anos 1970, domarem o Tejo. E é junto ao rio, no cais fluvial de Vila Velha de Ródão, que o encontramos a “passar o tempo” da reforma a colher minúsculos peixes. “A maior parte é para dar aí ao meu parceiro”, aponta ao gato Tejo, aos saltos sobre a cana para gáudio das fotografias. “Já comeu uns cinco.”
António conhece “todas as pedras até se acabar o rio”, já quase em Espanha. O pai era pescador e durante os meses de Verão a família “fazia só a vida lá” na ilha. Construíam barracas de madeira, levavam galinhas, porcos, borregos. O dinheiro que o pai fazia com a pesca de rede naqueles meses tinha de dar para as compras do ano todo. Barbo, carpa, bogas, muitas enguias, que depois eram vendidas em cestas “por essas territas todas”. Em Outubro, quando começavam as cheias (e a escola), regressavam a terra firme. “Às vezes, acontecia o Outono chegar mais cedo, a chuva vir mais depressa”, recorda. “Estávamos a dormir e a água quase ali ao pé de nós.”
A transfiguração do rio era impressionante. No Verão, descobriam-se ilhéus e ali para o outro lado, em direcção às Portas de Ródão, a água chegava a dar pelo joelho. Passava-se a pé de uma margem para a outra, camiões também. Depois, no Inverno, o caudal subia tanto que alagava toda esta zona ajardinada, para lá do restaurante, construído muitos anos depois. “Em 1946, o meu pai teve de ir com o barco salvar umas pessoas que estavam naquela janela ali, na casa amarela”, aponta. “A água chegou lá acima.”
Antigamente, pescava-se aqui sável, saboga, lampreia. Mas isso António já não viu. “A barragem de Belver já só deixava passar as enguias. Depois de ser feita a barragem do Fratel, então é que isso desapareceu tudo. Nada sobe.” Os peixes que António se entretém a apanhar foram trazidos “da Alemanha” há “sete ou oito anos”. Assim como os enormes siluros – semelhantes aos peixes-gato – que os turistas franceses estão a pescar neste final de tarde numa das actividades turísticas disponíveis na região.