Uns refugiaram-se na casa da aldeia, outros nunca de lá chegaram a sair. Encontram no campo a liberdade de uma quarentena privilegiada, redescobrem aves, lagoas, plantas. Mas também muitas questões a que a natureza pode ajudar a responder.

Ao fim do dia, quando fecha as portadas das janelas, Diane Gazeau já não dá por nenhum carro passar. A luz do café da aldeia está apagada, a esplanada vazia. É um “silêncio terrível”. Só se ouvem os pássaros, de vez em quando um cão a ladrar ao fundo, o vento, as trovoadas, a chuva. “Ouve-se o tempo, a noite.” Mais nada.
Cedo de manhã, estando o vento de lá, acorda com o barulho da serração, que não deixou de funcionar. Talvez oiça um camião carregado de madeiras a descer a estrada, os tractores a caminho do campo, o pastor que passa com as ovelhas. É altura da sementeira. Já se puseram as batatas, as couves, os tomateiros, os pimentos. “Toda a gente está na terra.”
A casa de Diane Gazeau, francesa a viver em Portugal há mais de 30 anos, fica num cruzamento em Vila Franca da Beira. Dali alcançam-se as serras da Estrela e do Caramulo no horizonte e, da aldeia, avista-se o casario até ao largo da capela e o café. É para lá que Diane debruça preocupações sobre o distanciamento social a que a pandemia veio confinar-nos, até numa pequena povoação da Beira Alta. “Há muitos velhotes, muitos viúvos e viúvas, e o café era o que unia as pessoas.” Os homens cedo, pelas 9h. As mulheres por volta das 10h30. Depois das bicas, outros copos, dia fora. Era onde as solidões se esbatiam entre dedos de conversa. Preocupa-se com o isolamento daquelas pessoas, com o alcoolismo que, de vez em quando, percorre agora as ruas de madrugada, “à procura de uma porta que se abra”. Pensa no “quão difícil deve ser para eles”.
Não que para Diane esteja a ser mais fácil. Partiu de Lisboa no início de Março, para uma consulta no dentista, no concelho onde viveu cerca de dez anos e onde continua a regressar com frequência, e decidiu ficar quando viu decretado o estado de emergência. As filhas continuam longe, nas cidades onde estudam, as três em universidades diferentes. “Os afectos ficaram muito abalados”, confessa. “Já chorei imenso. É terrível ouvir o próprio silêncio.” Mas depois olha para o campo e “encontra respostas”. Há uma generosidade que não vê na cidade. A terra devolve o que semeia. A vizinha passa a oferecer uns ovos. “Agora não damos beijinhos mas ainda existe aquela coisa da troca.”