Descobrir o Alentejo a olhar os pássaros

Quantas aves cabem no céu alentejano? De ecossistema em ecossistema, voamos da planície às serras, da lagoa ao mar e ao rio, descobrindo um mundo de aves afinal tão diverso. E ainda damos um salto a Espanha com as rapinas.

Foto: Paulo Margalho

O silêncio civilizacional é absoluto no alto do castelo de Noudar. Vê-se o casario branco de Barrancos, lá ao fundo, mas só a natureza dá provas de vida, entre o canto das aves e o som dos chocalhos ao ritmo dos gestos das vacas de raça mertolenga que vemos preguiçar nos montes. Foi pelas aves que viemos ao Parque Natureza de Noudar, colado à fronteira que se anuncia para lá da curva voluptuosa do rio Ardila. Tínhamos esperança de vislumbrar o tom metálico do melro-azul que “normalmente vem espreitar” e logo desaparece, contam-nos, mas desta vez não temos sorte. Em compensação, avistamos alvéolas-brancas, chapins-reais e chapins-azuis, um rabirruivo, muitas andorinhas-das-rochas a sobrevoar as muralhas e cotovias de diferentes espécies.

Há quem no grupo consiga identificar no canto aquilo que, a esta distância, é difícil distinguir na plumagem, mas essa não é mestria para quem se estreia no mundo dos pássaros. Já no interior da igreja de Nossa Senhora de Entre Ambas as Águas (mais tarde do Desterro), ainda dentro das muralhas de Noudar, tentamos adivinhar pelos vestígios deixados que aves se aninharam por aqui até rumarem a paragens mais quentes, como a andorinha-dáurica (vemos o ninho mas ela já andará por África), ou que estiveram a alimentar-se por aqui há pouco tempo, como a coruja-das-torres (no chão, encontram-se vestígios de ossos e pêlo de uma presa).

É um despertar dos sentidos que se aguça com a prática. Ao guarda-rios não o encontramos com os binóculos, ainda que nos garantam ali estar junto ao espelho de água, mas não nos escapam as cegonhas-pretas, de patas e bicos encarnados. É raro ver assim tantas e nesta altura do ano. “Parecem estar a juntar-se para migrar para África, porque normalmente são muito solitárias”, aponta um dos especialistas com quem viajamos, guias de birdwatching de um lado e do outro da fronteira. “Mas há cada vez mais [cegonhas-pretas] a invernar aqui e em Espanha”, garante outro.

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