É obrigatório desfrutar das praias e piscinas naturais de águas mornas e cristalinas. Mas é preciso virar-lhes costas para nos encantarmos com o lado mais genuíno deste Estado do Nordeste brasileiro.

“Nesse espaço, tem algo muito especial e queria que vocês tentassem descobrir o que é. Representa toda a nossa territorialidade, faz parte da nossa história.” Alguém lança a resposta certa, mas ninguém consegue identificar a espécie por entre o arvoredo. É um pau-brasil nativo que, com uns 30 metros de altura, deverá ter cerca de 150 anos, estima Alyson Cardoso, da Ecoboat. “Demora um ano para crescer quatro centímetros. É muito difícil encontrar um pau-brasil desse tamanho no Estado e no país.”
Estamos em Jequiá da Praia, mergulhados na Mata Atlântica que povoa parte da margem da lagoa de Jequiá, a terceira maior do Estado de Alagoas e o “segundo maior reservatório de água doce do Brasil”. Este pedaço de floresta faz parte dos 5% de “Mata Atlântica original” que ainda existe no país, enquanto “as outras foram desmatadas e depois recuperadas”. “Mostra o quanto esse lugar ainda é preservado”, sublinha Alyson, enquanto os olhos sobem pelo tronco de uma sumaúma fabulosa, provavelmente germinada na mesma altura, com 40 metros de comprimento. Era a partir delas que se construíam as canoas: dez a 15 pessoas demoravam “em torno de quatro ou cinco meses” para talhar uma embarcação a partir de um tronco só.
Esta zona faz parte de uma reserva extractivista, uma área protegida que permite às comunidades tradicionais locais manterem os seus modos de vida. Alyson, de 26 anos, nasceu aqui, filho de uma família de pescadores. Há dez anos, partiu para formar-se em técnico de agro-pecuária e depois biologia, já na universidade. Em 2019, regressou a casa para criar a Ecoboat, um projecto “pioneiro em passeio ecológico” e a primeira iniciativa turística nesta região lagunar. Numa zona em que a maioria “sobrevive directamente da pesca”, onde a incerteza da profissão obriga tantos a emigrar para “outra região do Estado ou do país para poder trabalhar”, Alyson quer “mostrar que existem outras possibilidades para sobreviver aqui de forma consciente”.