Com as alterações climáticas a fazer subir as temperaturas e a diminuir a queda de neve na serra da Estrela, ainda é o manto branco que caracteriza a paisagem de Inverno na montanha portuguesa?

Entre o polvilhado de blocos redondos de granito, estende-se aos nossos pés um manto de erva pardacenta, queimada pelo vento e gelo. Um mar de dourado exausto que nos habituámos a associar a outras épocas do ano. Aqui e ali, pequenos grupos de visitantes dispersam-se na paisagem, compensando a desilusão com as fotografias possíveis. Surge um autocarro, o único que vemos, com uma turma escolar para uma visita guiada, enquanto do centro comercial da Torre, com lojas e restaurante, grita uma música de discoteca altíssima em completa dissonância com a natureza envolvente. Para onde quer que olhemos, do topo do ponto mais alto da serra da Estrela não se vê qualquer vestígio de neve.
“Estamos muito tristes”, lamentava Cristina momentos antes no Covão d’Ametade. “Já tinha vindo há 25 anos e havia muita neve. Agora nada.” Desta vez, foram os filhos a “insistir muito” para virem. Aos 20 e 12 anos, naturais de Porto Covo, “nunca tinham vindo” à serra da Estrela. “Foi uma desilusão. Nunca viram neve.” Durante décadas, a imagem da maior montanha de Portugal Continental colou-se ao manto branco de Inverno, aqui mais presente do que em qualquer outro ponto do país, e ainda hoje é a expectativa de encontrar esse cenário gelado que traz até à serra da Estrela centenas de pessoas durante os meses mais frios do ano.
Mas, numa altura em que o aumento das temperaturas está a acelerar o degelo dos glaciares nos Alpes e a fechar estâncias de esqui nas principais montanhas da Europa (ou a adiar a abertura de outras tantas, dos Estados Unidos aos Himalaias), ainda faz sentido irmos à Estrela atrás da neve? E que impacto é que a falta dela tem no turismo?