As flores entregues há 50 anos aos militares no Largo do Carmo muito provavelmente foram produzidas no Algarve. Guilhermina Madeira era regente no então Posto Agrário de Tavira e recorda esses dias.

Enquanto os capitães de Abril ultimavam os preparativos para a revolução que, no dia seguinte, haveria de pôr fim à ditadura, no Posto Agrário de Tavira era dia de azáfama nas estufas. Há oito anos que aquelas estruturas de madeira e vidro tinham sido instaladas no coração da estação experimental algarvia para o cultivo e estudo de diferentes variedades de cravos. Quarta-feira era dia de colheita. “Mandávamos daqui para Lisboa às segundas, quartas e sextas”, recorda Guilhermina Madeira, então regente agrícola no actual Centro de Experimentação Agrária de Tavira (CEAT).
Os botões que estivessem totalmente floridos eram cortados pelo pé, colocados em cestas de cana e enviados no camião que vinha desde Vila Real de Santo António “apanhando junto à EN125 as sacas com os produtos hortícolas”, “as ervilhas, as favas”, produzidas nesta zona do Algarve para depois serem vendidos no mercado da Ribeira, em Lisboa. Terá sido ali que foram comprados os cravos para celebrar o primeiro aniversário do restaurante onde trabalhava Celeste Caeiro, a mulher que, para não se estragarem as flores com o fecho do espaço devido à revolução nas ruas, levou uma braçada de cravos em direcção a casa. Chegada à Rua do Carmo, deu o primeiro a um militar numa chaimite que lhe pedira um cigarro para depois, sem fumo mas flor, o mergulhar no cano da espingarda.
Talvez nunca se venha a ter certeza se aquele cravo inaugural nasceu mesmo em Tavira, mas o gesto multiplicado, tão casual quanto poético, que daria nome à Revolução dos Cravos, terá tido muitas pétalas vindas do posto algarvio. “Em Pegões, ainda não havia. Posteriormente, também houve umas [estufas] no Montijo. Mas penso que, naquela altura, basicamente éramos os únicos [a produzir cravos em Portugal]”, aponta Guilhermina, hoje com 78 anos. Do protagonismo das suas flores, no entanto, só saberia na segunda-feira seguinte.