O que se ganha quando se rompe com as paredes do estúdio e se grava música em plena natureza? O projecto internacional Echoes of the Ancient inverte o conceito e abre-lhe novas perspectivas.

“Hoje acordámos nas nuvens, o que é sempre mágico”, aponta Daina Zalane, mais habituada à planura da Letónia do que aos humores da Serra de Monchique. A chuva que cai lá fora, no entanto, acabou por cancelar todas as gravações planeadas para o dia, já a fechar a semana que ditou o arranque no terreno do projecto Echoes of the Ancient, uma iniciativa que une três associações locais de Portugal, Finlândia e Letónia para criar, em cada um dos territórios, vários estúdios de gravação na natureza.
“Virámos o conceito do avesso”, resume Mikko Keinonen, presidente da Heinäveden Muinaisseura ry, a associação de cultura ancestral de Heinavesi, na Finlândia, onde surgiu a ideia inicial. O que é um estúdio? Numa versão convencional, falamos de um espaço hermeticamente fechado e impessoal, “um ambiente isolado”, de que se “exclui o mundo” para ter como único foco a “perfeição da própria gravação e da actuação”. Registam-se os “sons puros isolados” e depois, na pós-produção, criam-se os efeitos, os ecos, as misturas.
O projecto Echoes of the Ancient procura reinventar o conceito, rompendo com as paredes e a artificialidade do processo. Enquanto a “cultura moderna” se definiu pela separação entre o homem e a natureza, e pelo domínio daquele sobre esta, aponta o finlandês, aqui a ideia passa não por “construir” ou “isolar” o que quer que seja, mas antes por “tentar respeitar o ambiente”, “ouvir” cada lugar e “adaptar” a criação musical à acústica natural do local e à interacção, naquele preciso momento, entre músicos, paisagem e fauna.