Pedro Cuiça encantou-se pelas caminhadas em criança e nunca mais parou. Foi jornalista, técnico de trilhos e hoje é formador. Andar a pé, diz, é uma panaceia, mas alerta para o “síndrome Decathlon”.

Pedro Cuiça teria “dez ou 12 anos” quando um livro o levou a deambular pelos arredores de Faro. Chamava-se Ao Encontro da Natureza, da Reader’s Digest, e ensinava Como explorar e apreciar o mundo fascinante que nos rodeia. “Tinha uma série de assuntos, desde a exploração de grutas, subir a montanhas, muitas coisas ligadas à natureza, e aquilo atraiu-me”, recorda aos 56 anos.
Começou perto de casa. Ia caminhar até ao Ludo, junto à praia de Faro, uma “zona húmida” integrada na ria Formosa, com pinhais e “uma grande variedade de aves”. Estimulava-o a descoberta, o próprio movimento. Depois, começou a ir para o Barrocal, para o cerro da Cabeça, perto de Moncarapacho, “que é um Megalapiás, uma paisagem completamente fantástica e fora do comum”; e para a rocha da Pena, junto a Salir, “talvez a única montanha com escarpas do Algarve”, onde começou na escalada e espeleologia. “Esses dois sítios são aqueles com que mais me identifico e sempre que falo destas coisas, regresso lá. E sempre que posso, volto lá também.”
Naquela altura, Pedro ainda não saberia dizer ao certo o que o atraía nisto do andar a pé. “Tinha a noção, um pouco sensitiva ou emocional, de que, pelo menos, me estimulava os pensamentos, me deixava inspirado e bem-disposto e que, certamente, faria bem à saúde”, recorda. Hoje, vê a caminhada como “uma espécie de panaceia”, gratuita e “à porta de casa”, com “benefícios quase imediatos”. Mas também como um regresso a nós próprios, num duplo sentido.