Demos a volta aos Açores e Madeira para descobrirmos mais histórias das ilhas. Um regresso quando se assinalam os 90 anos d’“As Ilhas Desconhecidas” de Raul Brandão.
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Graciosa
No manso passo do burrico
Nos Açores, é conhecida como a ilha dos burros. Chegou a haver um por cada seis habitantes; agora não chegarão a 70. O burro “anão” da Graciosa foi reconhecido como raça autóctone em 2015 e há quem na ilha lute para que não desapareça para sempre.
Ainda estamos a estacionar o carro à beira da estrada lamacenta e já elas caminham na nossa direcção, de olhar curioso e focinho amistoso a surgir atrás do cercado. Uma castanho escuro, uma de pêlo pardo e outra creme claro. Três burricas em miniatura, uma lista negra a descer a crina num abraço a cada dorso. Olham-nos de baixo, o pescoço esticado a pedir mimos. Lola e as duas filhas, Maya e Lena, são burros da Graciosa, raça autóctone reconhecida em Junho do ano passado, a segunda no país depois dos jericos de Miranda. Já foram mais de mil, um por cada seis habitantes na década de 1920; exportavam-se para outras ilhas do arquipélago. Nos Açores, a Graciosa era a “ilha dos burros”. Agora não serão mais de 70.
Estamos na quinta de Franco Ceraolo, presidente da Associação de Criadores e Amigos do Burro Anão da Ilha Graciosa, um dos dois criadores da raça. Um recanto isolado na freguesia de Guadalupe, a meio de um caminho de sugestivo nome, daqueles impossíveis de ignorar: Esperança Velha. À volta não há mais edifícios, mais ninguém. De um lado, montes suaves desligam-nos de dentro da ilha, à nossa frente só prados verdes e o mar imenso, infinito para lá do horizonte. Só um zurro ocasional rompe o silêncio do vento e das ondas a bater no recorte da encosta. Os ponteiros desprendem-se do relógio, passeiam-se demorados em afago pelo pêlo crispado dos pequenos animais.
Em 2007, o cenógrafo italiano mudou-se para este refúgio na Graciosa para desaparecer do mundo. Agora luta para que o burro da ilha não cumpra em definitivo esse destino. O fado paradoxal das histórias de amor. “Não sou veterinário, passei a vida inteira noutro tipo de trabalho completamente diferente, mas fiquei apaixonado por estes animais”, conta num português de dançar italiano. “Eu brinco com os meus burros como se fossem um cão ou um gato”, vai repetindo ao longo da conversa. “São tão carinhosos, são incríveis. Eu não sabia disso, descobri com estes anos de experiência directa [com eles].”
Em Roma, Franco era cenógrafo de cinema e de teatro. Trabalhou com realizadores de renome, como Martin Scorcese, Bernardo Bertolucci ou Frederico Fellini. Até que um dia decidiu que “queria acabar com o trabalho” na sétima arte e mudar-se para a Graciosa, a segunda ilha mais pequena dos Açores. “Sempre tive o gosto, desde pequeno, de viver numa ilha e encontrei aqui uma quinta com muita área. Gostei de aproveitar isso, então comprei tudo e agora fico aqui”, conta.
Foi então que, em passeios pela ilha ou no caminho para o supermercado, começou a reparar que encontrava sempre “velhotes a montar um burro ou com uma carroça”. Um cenário que lhe recordava a infância vivida com os avós numa pequena vila na Toscana “cheia de burros muito parecidos a estes”. O pêlo curto, o mesmo porte pequeno mas proporcional, ambos com origem no Norte de África (ao contrário do burro mirandês, de corpo atarracado e pêlo comprido, de linhagem europeia). Também lá, o número de burros era cada vez mais reduzido, até que há cerca de 30 anos um amigo de Franco “começou a fazer criação para não se perder a raça”.
Na Graciosa, a situação era idêntica. O burro típico da ilha — que aqui todos apelidam de anão, por não chegar a 1,20 m de altura ao garrote, embora sem características genéticas para o ser considerado oficialmente — ia deixando de ser a principal força de trabalho na agricultura e meio de transporte, substituído pelas alfaias agrícolas, pelos carros e motas. “Ou se fazia algo agora para [salvar] os burros [da Graciosa] ou iam desaparecer totalmente em dez ou cinco anos.”
Em 2008, Franco comprou o primeiro burro. Pouco depois uma burra. Começou a fazer criação. Hoje tem dez animais, dois machos e oito fêmeas, separados em quatro grupos para “não juntar os machos nem o pai com a filha ou irmãos, por uma questão de genética”. A Lola é a grande parideira do grupo, mãe das três crias que nasceram com sucesso na quinta, um macho e duas fêmeas. Lena, a mais nova, tem um ano e três meses.
De carroça até à horta
Sempre que o burro da Graciosa surge como tema de conversa, não há ninguém na ilha que não nos fale do senhor Valentim e a sua “carrocinha”. “É o monumento mais fotografado da Graciosa”, graceja Franco. Todos os dias, “de manhã e à noite”, Valentim Sousa atrela a pequena carroça cor-de-laranja na “burrinha” e desce a vila para cuidar das duas “bezerrinhas” que tem num terreno junto ao mar.
Quatro viagens por dia, pouco mais de dois quilómetros cada, entre o Rebentão (povoação a norte de Santa Cruz da Graciosa) e a Ponta da Pesqueira, próxima do hotel principal da ilha (onde ficámos alojados). É aqui que muitas vezes encontra turistas, portugueses e estrangeiros, tudo a tirar-lhe “retratos que é um disparate”, conta. Às vezes, “até pára” para tirarem fotografias e antigamente alguns subiam mesmo para a carroça, andavam um pouco e tiravam fotografias com Valentim. “Agora tenho um cachorro que não deixa ninguém chegar-se ao pé de mim, começa logo a latir.” Na voz, meio tom de lamento, meio tom de resignação.
Valentim, de 76 anos, é um dos poucos habitantes da ilha que ainda utiliza o burro como meio de transporte. Chegou a ter cavalos, quando “precisava de um bicho que andasse mais depressa”. Tem burros desde que voltou da tropa. “O meu sogro tinha um e arranjou para mim também”, recorda. Quando era novo “a escola era fraca”, não chegava para os exames de condução. Nunca teve carro. Desde sempre que faz quase tudo de carroça, mas teme que quando a velha burra morrer já não consiga comprar outra. “Já para arranjar esta andei quase um mês sem nenhuma”, conta. “Antigamente era uma porção deles que havia. Só onde eu morava havia mais de dez.” Agora são poucos e quem os tem não quer vender. “Querem é tê-los para os seus serviços.”
A João Silva, por exemplo, já ofereceram mil euros pelo burro. Quando o comprou, há cerca de dez anos, deu 200€ por ele. “Tinha gosto em ter um porque estão a ficar em vias de extinção e porque precisava para semear o milho e para os pequenos cultivos que a gente faz”, conta. Aos 42 anos, João trabalha no matadouro municipal da Graciosa e é agricultor no tempo que sobra. “Gosto de cultivar para ter [em casa]. Sai mais barato e a gente sabe o que está a comer.”
Mora na povoação das Almas, mas é junto ao terreno que tem na Ribeirinha que o encontramos com a família. Passa uma nuvem de água pesada e logo se põe um sol a perder força sobre o mar. As batatas já estão semeadas. O milho, o feijão, as ervilhas, as cebolas e os alhos também. Hoje, o pequeno jerico passeia o arado apenas para as fotografias, o cavalo descansa lá ao fundo. As terras maiores e o trabalho mais exigente são feitos com o cavalo, “mas para pequenas coisas o burro ainda resolve muito”. Cobre o milho, abre os regos para semear as hortaliças. Às vezes, João mete-lhe a albarda e sobe nele até casa. “Já está com uma boa idade, mas gosto muito de o ter. É muito mansinho.”
Um burro com futuro
Tal como João, ainda há quem utilize o burro da Graciosa para lavrar a terra. “É uma ilha pequena, então os cerrados são pequenos e não vale a pena trazer um tractor ou outras máquinas”, defende Franco Ceraolo. Há uns anos, o italiano descobriu na Internet que em Inglaterra usavam os burros para cortar a relva. Desde então, “deixa entrar um ou dois” no terreno atrás de casa e “fazem um trabalho perfeito”. “Melhor do que uma roçadora”, ri-se. “Digo sempre que o burro é um bom negócio.”
No entanto, não vê o futuro passar pelo trabalho no campo. Há que apostar noutras actividades, mais rentáveis, para que a aquisição de burros da Graciosa se torne atractiva e a sua procura aumente, permitindo a recuperação da espécie. A asinoterapia é um dos caminhos. A produção de leite de burra outro (já se faz na Terceira, por exemplo). E depois, talvez o mais promissor, o turismo, nomeadamente com passeios pela ilha, que “se presta a isso porque é muito plana”.
Em Setembro, organizaram uma burricada, como era tradição na ilha; conseguiram juntar “cerca de 15 burros”. De vez em quando leva os filhos dos amigos numa pequena volta pela quinta e, no ano passado, recebeu “um email de Lisboa” a pedir para fazer um passeio. “Combinámos tudo e quando chegou era uma japonesa. Veio viajar pelos Açores e tinha ouvido falar do burro da Graciosa”, recorda com espanto.
Contudo, na ilha ainda não há ninguém a explorar oficialmente o potencial turístico dos jericos autóctones. E Franco, apesar dos passeios pontuais, afasta para já a possibilidade de dar o primeiro passo. “Tenho sobretudo burras para criação, que ficam cheias e não é o mais indicado para passeios”, defende. “Para mim, o mais importante agora é fazer a preservação da raça, criar mais exemplares.”
Foi com esse objectivo que, em 2013, desafiou alguns amigos da ilha a fundar a Associação de Criadores e Amigos do Burro Anão da Ilha Graciosa. A primeira luta foi o reconhecimento da espécie como raça autóctone. O Centro de Biotecnologia da Universidade dos Açores, liderado pelo professor Artur Machado, fez o levantamento do efectivo e os estudos biométricos e genéticos necessários. A raça foi reconhecida em Junho do ano passado. “Agora temos de inscrever todos os animais num livro genealógico, para que seja possível pedir um pequeno apoio, que não é nada de especial mas pode ajudar e incentivar os graciosenses”, indica Franco. “Temos de ir muito devagar, eco, um passo de cada vez.”

Terceira
No interior de um vulcão
Descemos ao centro da Terra para mergulhar no interior de um vulcão, entre uma chaminé de vegetação luxuriante e grutas de rochas multicolores. Bem-vindos ao Algar do Carvão, ex-líbris da ilha.
Chove copiosamente lá fora e também aqui, dentro do centro do centro da Terceira, as pingas caem incessantes. Estamos no Algar do Carvão, principal ex-líbris turístico da ilha, uma das cavidades vulcânicas mais impressionantes do arquipélago. “É o único sítio do mundo onde conseguem ver o interior de um vulcão assim com estas características”, garante Mário Rosa, da delegação regional de turismo e nosso guia na Terceira. “Há outro parecido na Indonésia mas não é visitável.”
Visto de fora, no entanto, o Pico do Carvão passa despercebido entre os cerros vizinhos. Nada faz suspeitar que debaixo do verde e frondoso manto que se ergue à nossa frente se esconde um cone vulcânico perfeito, daqueles que nos povoam a imaginação desde que brincávamos com plasticinas. Para lá chegar, percorremos um túnel com paredes de betão, tão comprido e estreito que quase não lhe vislumbramos o fim. O tecto do corpo a centímetros do tecto do corredor. O ar, de repente húmido e gélido, arrepia os ossos, faz-nos subir o fecho dos casacos. Já nos sentimos dentro da Terra. Toupeiras a caminho de casa. Um corredor que nos aperta o espírito para deixá-lo a navegar de assombro quando se abre a sala do vulcão à nossa frente.
Quando entramos no interior da chaminé ficamos-lhe sensivelmente a meio: para cima, um cone de rochas multicolores e luxuriante vegetação vai-se fechando sobre as nossas cabeças, terminando num círculo aberto ao céu; para baixo, uma escadaria desce num ziguezague íngreme até duas câmaras vulcânicas. Está frio dentro da Terra, dentro do vulcão. E chove quase tanto como na rua. Pingas grossas que caem do tecto oco e das paredes permeáveis para ressoarem suaves à nossa volta. Vem de fora o bater ritmado do coração da Terceira.
Só mais tarde lhe veremos a respiração, as narinas fumegantes das Furnas do Enxofre a confirmar que, apesar de adormecida, ainda existe actividade vulcânica na ilha. Não têm a exuberância das furnas de São Miguel, mas ganham no enquadramento na paisagem natural. Um cenário quase esotérico, com fumarolas mergulhadas entre vegetação fofa e rochas lamacentas, que vão perdendo a cor, apagada pela composição química do enxofre.
Mas, para já, ainda estamos no avesso da Terra, na base do cone e primeiro “miradouro” do algar, onde um guia introduz os visitantes na história desta estrutura vulcânica. Terá sido formada em duas fases, a primeira há três mil anos, durante a grande erupção do “Pico Alto”, no aparelho vulcânico de Guilherme Moniz, já existente, e que derramou as suas lavas até grandes distâncias, formando sectores de rocha traquítica. Mais tarde, uma nova erupção, agora basáltica, rasgou o solo e a lava saiu, voltando depois a escorrer para dentro da cratera, quando a erupção parou abruptamente. Nas paredes, aponta, ainda conseguimos ver vestígios desta escoada, assim como zonas com grandes formas arredondadas, criadas pelas bolsas de gás que se formaram no interior e que explodiram nesta altura.
O primeiro relato de uma descida ao interior da garganta vulcânica data de 26 de Janeiro de 1893, com recurso a cordas, mas só em 1963 se iniciavam descidas organizadas, então já realizadas pelo grupo de jovens terceirenses que nesse ano fundaria Os Montanheiros, organização não governamental que gere turisticamente o Algar do Carvão e a Gruta do Natal (um túnel lávico com 700 metros de comprimento, localizado a cerca de seis quilómetros de distância, que não teremos tempo de visitar).
Em 1968 era inaugurado o primeiro túnel, entretanto alargado e consolidado a betão. E em 1973 era terminada a escadaria inicial de acesso aos diferentes patamares da cavidade, da chaminé vertical às duas câmaras que se abrem na base, vai enumerando o jovem guia. Desde 2006 que, no âmbito das celebrações do aniversário da associação, é realizada uma prova de resistência pela escadaria acima. Miúdos e graúdos numa subida em contra-relógio pelos mais de 300 degraus em pedra escorregadia, desde a superfície da lagoa interior à entrada do centro de visitantes.
Não nos tentamos a experimentar tal façanha. Preferimos ficar debruçados sobre o lago de águas pluviais que cobre o fundo da cavidade. Cerca de 80 metros de altura distanciam o topo da cratera do chão da lagoa. É nesta ala que ainda se encontram algumas estalactites e estalagmites de sílica amorfa, mas muitas destas formações de cor leitosa já desapareceram, arrancadas por visitantes. “Uns levavam como recordação, outros pensavam que poderia ter algum valor económico”, conta Mário Rosa. O mesmo terá acontecido com a maioria das pedras de obsidiana, rocha vulcânica de negro cristalino, considerada rara e semipreciosa.
O complexo do Algar do Carvão termina na “catedral”, uma sala de tecto abobadado com ares de gruta de presépio em tamanho real. Das colunas de som instaladas junto às paredes sai música clássica, testemunha da boa acústica do espaço, ocasionalmente utilizado para concertos e celebração de eucaristias. Antes de continuarmos o passeio até às furnas, Mário aponta para um buraco num recanto do tecto da sala. Daqui não se vê o fim da cavidade e, durante anos, especulou-se ser a entrada para outras câmaras vulcânicas. Quando finalmente conseguiram subir lá cima descobriram que o túnel terminava pouco depois; para sempre apelidado de “boca dos enganos”.
Sentimo-nos engolidos pelo vulcão, mais perto dos mundos imaginários do que da realidade que segue lá fora. Estaríamos prontos a continuar em Viagem ao centro da Terra, tal como sonhou Júlio Verne em 1864. Na obra do escritor francês, a aventura começa com a descida pelo interior de um vulcão na Islândia (onde existe uma afamada câmara magmática visitável próximo da capital) mas bem que podia ser aqui, imaginamos. Alex e o tio emergiram num vulcão na Sicília. E nós, onde iríamos terminar?
As reportagens integram a série Volta às Ilhas, publicada no Público a 28 de Maio de 2016.