Em Sagres, tudo é mais agreste, natural, verdadeiro

A nortada sopra violentamente grande parte do ano e essa força da natureza molda a personalidade da vila mais a sudoeste do país. O mar traz peixe e marisco sublime, golfinhos e histórias. Os promontórios transformam-se num “jardim bonsai” de endemismos e ervas aromáticas. Sagres tem a “energia especial” dos lugares “verdadeiros”.

Foto: DR

Quando Simone Gazzola visitou Sagres pela primeira vez, encontrou um cenário dantesco. Janeiro. Tudo fechado. “Às 14h, já não havia luz [natural]”. Soprava “um vento impressionante” e as ondas batiam em estrondo contra as rochas. “Boom, boom, boom.” Uma chuvada que “molhava até as cuecas”.

Para muitos seria passeio para nunca mais repetir, mas para o italiano de 40 anos foi amor à primeira vista. “Senti que não éramos nada. Somos areia, frágeis como as folhas.” Esta “natureza forte”, “que diz: cá mando eu”, faz de Sagres “um sítio verdadeiro”, defende. Dá-lhe uma “energia especial”. O encantamento foi tal que decidiu vender o restaurante que tinha há 14 anos na “Milão de plástico” e mudou-se para cá, faz 11 anos. “Viver aqui é um luxo que não há igual.”

Estamos no Mum’s, o restaurante que Simone abriu com a ex-mulher, Giulia Rovellini, na rua principal da vila, localizada no concelho de Vila do Bispo, no Algarve. E até essa é uma história caricata: separados, estavam prestes a ir cada um para seu lado, quando Simone, já de bilhete de avião comprado, passou pelo espaço e o antigo proprietário desafiou-o a ficar com ele. O antigo casal sempre teve o sonho de abrir um restaurante em conjunto e acabou por fazê-lo em Sagres, como sócios e colegas de casa, já separados. E assim seguem, há dez anos.

Não chove, o sol queima bem durante o dia e o mar chega manso às praias e falésias, mas a nortada sibila crispada nos vidros, omnipresente. Momentos antes, assistíamos ao pôr do Sol no cabo de São Vicente, peregrinação obrigatória nestas paragens (é ver o sol começar a fraquejar e chegam carros, bicicletas, caravanas e gente de todo o lado, só para assistir ao espectáculo e partir mal este termine), e o carro abanava, estacionado, numa dança violenta com o vento. Pode soprar com maior ou menor intensidade, mas salvo uma ou outra “suestada”, só abranda lá para “o fim de Agosto, Setembro”, há-de apontar Ana Maria, no restaurante Carlos. Nessa altura, “é maravilhoso aqui”, garante: “não faz vento” e a temperatura é “boa”.

Quando a natureza é assim tão crua, ela própria encarrega-se de proteger o lugar. Afasta as multidões de banhistas que procuram o sol tórrido e a água quente de outras paragens algarvias, enfraquece o ímpeto do desenvolvimento imobiliário e turístico (com a ajuda do Homem, que classificou toda esta faixa costeira do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina como parque natural, salvo “um ou outro atentado” que, volta e meia, incendeia as conversas) e atrai gente com gosto pela paisagem (quase) intocada, pelo mar bravo, pelos produtos ricos que aqui abundam.

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