Os filhos de Mação querem mostrar os encantos da terra a caminhar

As Rotas de Mação foram criadas por um grupo de voluntários com vontade de mostrar as “belezas naturais” que ficavam para lá das notícias dos fogos. Pelos trilhos, caminham-se paisagens e panorâmicas e conhece-se um povo de tradições, histórias de emigração, lendas e património arqueológico (e não só).

Foto: Filipa Fernandez

Sobre a velha mó, agora mesa de piquenique, há uma data esgravatada na pedra, qual gravura rupestre de um malogrado ano: 19/04/2020. Para fugir à pandemia, Rui Silva, Lurdes Vicente e outros da aldeia de Queixoperra, no concelho de Mação, começaram a vir para este recanto longe de tudo. “As tardes de domingo do confinamento foram todas passadas aqui.” Uns traziam os paus, outros as telhas. Uns pregavam as tábuas, outros erguiam o barro. Uns davam a força dos braços, outros a delicadeza das histórias, das placas informativas, das flores. “Depois comíamos aí uns petiscos.” E assim passava-se o fim-de-semana. “Fugíamos do meio da população para não estarmos juntos e chegávamos aqui e já estavam uns 18 ou 19”, ri-se Rui.

Tudo no Poço das Talhas foi erguido com o suor e dedicação da comunidade da aldeia, escondida algures no topo dos cerros, o que faz deste um recanto especial da Rota da Queixoperra, um dos cinco percursos pedestres que inauguraram um novo projecto, também ele feito maioritariamente por voluntários, as Rotas de Mação. “Têm feito um trabalho incansável”, aponta Carmelinda Marques, advogada, desbravadora das paisagens do concelho e uma das voluntárias da associação entretanto constituída. “Este trabalho físico no terreno tem um valor incalculável.”

O lugar, encaixado num vale isolado, vai buscar o nome às covas que a correnteza da ribeira foi escavando nos rochedos do leito ao longo dos séculos. Mas, para quem dispense as explicações geológicas, o grupo decidiu criar um recanto mais literal no melhor sítio para as fotos de postal: uma “imitação de um poço” ladeado por duas talhas de barro.

É daqui que se tem a melhor vista para o cenário bucólico. Tudo parece enquadrado de aprumo para uma pintura rural: a água que desce as danças do vale numa sucessão de pequenas cascatas; as conchas talhadas na rocha, uma larga, onde imaginamos uma piscina natural perfeita para os dias de Verão, não fosse a ribeira secar por completo nos meses mais quentes, e outras de um redondo feito a compasso, mais estreitas mas profundas (“Naquela dizem que cabe um homem inteiro de pé”, contam-nos). E, depois, uma ponte finíssima e recta, feita em pedras, que nos faz questionar se as leis da gravidade olvidaram este lugar ermo; e, à direita, um triângulo de casebres recuperados, duas azenhas e um antigo palheiro. “Neste momento, estamos com esta beleza. Mas, no Inverno, com as cascatas que se formam pelo caudal imenso da ribeira, ainda mais espectacular se torna”, aponta Carmelinda.

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