Depois de os fogos lhes terem batido à porta, há vizinhos a unirem-se para pôr as mãos na terra. Contra a inércia, querem plantar floresta, fomentar resiliência e, sobretudo, devolver esperança.

Os incêndios de 2017 deixaram cicatrizes profundas. Na Benfeita, assim que as temperaturas sobem, o fogo começa a “dominar as conversas”. Naquele Outubro, as chamas varreram mais de 85% do concelho de Arganil, e destruíram cerca de 30 habitações só naquela freguesia. A serra ficou reduzida a cinzas, que continuaram “a entrar” pelas janelas “o ano inteiro”, além “daquele cheiro constante”, recorda Bárbara Sá, residente na Benfeita desde 2012. A população ficou “bastante traumatizada”. Muitos decidiram ir embora, outros encontraram na acção colectiva a força necessária para continuar.
No início, era apenas “um grupo de pessoas” que se juntava para arrancar eucaliptos, conta. “Estavam a começar a expandir-se espontaneamente por todo o lado, uma situação que não tínhamos antes de 2017.” Mas nunca haveria mãos que chegassem. Por isso, decidiram criar a ARBOR – Associação da Região da Benfeita para Objectivos Regenerativos, e apostar na criação de parcerias com outras organizações e na reflorestação. “Também sentimos que seríamos mais ouvidos pelas autoridades locais se nos organizássemos como associação”, lembra Bárbara, co-presidente e co-fundadora.
Fizeram angariações de fundos e ajudadas de voluntários nos terrenos. Ergueram uma estufa comunitária e criaram um banco de sementes locais para apoiar esse esforço de devolver árvores autóctones à serra, entre outras iniciativas. Mas cedo perceberam que não podiam ficar apenas pela prevenção. “Era necessário fazer alguma coisa a nível dos fogos, porque o stress e a tensão que se vivia aqui cada vez que o vento começava a levantar em Julho e Agosto…” As cicatrizes saravam, mas a inquietação ficou. “Nem se põe em questão. O fogo volta.”